quinta-feira, 17 de setembro de 2015

Os 12 trabalhos - Parte V


Para entender a história toda:


...continuação...


7:00 Hércules já estava acordado e pronto para o trabalho. Sr. Lyon olhou até assustado quando chegou e já viu o rapaz sentado no refeitório o aguardando e, o jovem poderia jurar, te-lo visto passar uma nota de dinheiro, como se pagasse uma aposta, para um outro funcionário, o qual ignorava totalmente o nome.

- Não posso dizer que não estou impressionado com sua pontualidade. Muitos jovens aventureiros, como você, já passaram por aqui, mas poucos tiveram tanta disposição. Você se lembra onde ficam os currais?

Hércules franziu o cenho, puxando na memória.

- Iiihhh Lyon, acho que ele precisa daqueles totens, como tem nos shoppings, com um mapa com uma grande indicação “Você está aqui! ” – provocou o outro funcionário sorrindo de forma jocosa.

O jovem o encarou com um olhar frio que fez o sorriso do homem murchar e disse:

- Sim, eu me lembro onde fica.
- Ótimo!  - exclamou o senhor – pegue balde e esfregão. O seu trabalho do dia é limpá-los.
- Certo senhor! – Hércules saiu de forma altiva e com a segurança de quem sabe para onde estava indo, mesmo não tendo tanta certeza de ondem ficavam os baldes e muito menos os currais.
Quando o jovem saiu, o funcionário se dirigiu ao Lyon:
- Isso sim é crueldade! Já faz um tempo desde a última limpeza. O rapaz num vai guentá não.
E com um sorriso o senhor o respondeu:
- É isso que eu espero. – e ainda se divertindo com a maldade do dia, ele encaminhou cada um para o seu posto.

Fazia quase 1 hora que o jovem caminhava sem rumo pela fazenda. Tinha conseguido achar os baldes mas agora não fazia a menor ideia de onde estava indo e estava quase certo de já ter passado por aquele local, quando uma voz conhecida veio ao seu socorro:
 - Tá perdido? - Atena brincava num balanço feito por tábua e corda preso a uma árvore - é a terceira vez que vejo passar por aqui em menos de 15 minutos.
O jovem jogou os braços para cima:
- Graças ao bom Deus! Pensei que estava enlouquecendo! 
Ela riu e continuou a se balançar
- Onde quer ir?
- Preciso ir para os currais. - disse erguendo os instrumentos justificando-se. 
Os olhos da garota adquiriram um ar vago enquanto ela pensava num melhor caminho e jeito de explicar:
- Você poderia virar...não...hum...sabe onde ficam os maquinários? - o garoto fez uma careta - a entrada para horta? - ainda a careta - o celeiro? - ele riu desconcertado - Ta! Eu te levo até lá! - ela deu um impulso e saltou deixando o brinquedo se balançar sozinho - Vamos! É por aqui. - disse tomando a dianteira.
- Obrigado! Daqui a pouco o sr. Lyon vai verificar meu trabalho e eu ainda nem comecei.
- Iiih, relaxa. Esse é um tipo de lugar que ninguém vai. Nos currais há máquinas que alimentam os animais e trocam a água, criação do Hefesto, e o boiadeiro apenas abre as portas do lugar para colocar e tirar os animais de lá. Não é estranho você não ter encontrado. 
Enquanto falava a garota ia andando por labirintos de galinheiros, parreiras, flores e chuchus.
- O que você faz na sua cidade?
- Sou auxiliar de veterinário. Fiz um curso técnico junto com o Colégio.
- Pretende seguir na área?
Hércules a olhou meio de lado:
- Não sei ainda. Gosto de animais, mas, sinceramente, com tudo que anda acontecendo não parei para pensar se gosto ou não, se quero ou não. É difícil decidir essas coisas tão cedo.
- Entendo. Decidi fazer advocacia meio que no chute. Não que eu não goste, há uma sensação boa quando consegue-se argumentar com propriedade, entende?! Convencer as pessoas não só pela lábia e sim porque você tem razão - ela sorriu com o canto da boca - acho que eu só gosto é de estar certa. E quem não gosta, né?!
Ambos concordaram rindo. Seguiram alguns segundos de silencio que foi quebrado pelo jovem:
- É estranho me ter aqui, né?!
Atena só consentiu com a cabeça, mas continuou em silencio.
- Por muitas e muitas vezes no caminho eu me perguntei o por que continuar a viagem. Por que ir atrás de um pai que a única coisa que fez foi ignorar a mim e a minha mãe, mas sabe quando parece faltar algo? Quando, por mais completo que esteja, há um canto escuro repleto de tristeza e mágoa? E foi por isso que resolvi bater na porta de vocês, não queria e nem quero atrapalhar nada por aqui, mas eu precisava me livrar disso, precisava me sentir em paz. Tinha que olhar nos olhos do homem que, na minha cabeça, nunca tinha me procurado e tentar entender o porquê. É difícil explicar...
A loura sorriu com o canto dos lábios.
- Não pense que você é o único "não filho de Hera". Não precisei bater na porta de um desconhecido 17 anos depois, mas sei o que sente. É um peso do "por que eles e não eu?"
- Exatamente...
Voltaram a ficar em silencio por cerca de 1 minuto mas agora foi Atena que o quebrou: 
- Bem, é aqui - disse a loura apontado para um grande barracão. - Os animais devem estar fora, o que vai te ajudar muito. Bom trabalho - a moça se virou pronta para voltar.
- E como eu saio daqui? Você poderia ficar e ser minha guia, né?!
- Acha que não tenho mais o que fazer?! - ela pôs a mão na cintura como se estive ofendida
- Ah é mesmo, você tem que se balançar.
Ela deu um tapa no antebraço dele se divertindo
- Nada disso. Livros para ler e coisas para estudar. Estar sempre certa não é tão simples assim. – ela deu um sorriso largo - mas se você se perder de novo, liga pra mim que venho te buscar. E... sobre aquele assunto, sei que é difícil, mas não ache que foi rejeição. Zeus não é tão ruim quando se conhece. Ele tem um bom coração e é bem capaz que nunca teve a intenção de renegá-lo. No meu caso, ele só foi descobrir quando eu tinha 7 anos e minha mãe bateu nessa mesma porta e me apresentou. E desde aquele dia, nunca senti que ele gostasse menos de mim ou que me tratasse diferente. Acredito que com você deverá ser assim também. Liberte-se desta mágoa e tente conhece-lo. 
Ele concordou balançando a cabeça pensativo e ela voltou pelo caminho.

O rapaz chacoalhou a cabeça para espantar os pensamentos, agora era hora de trabalhar e mais tarde pensaria sobre isso. Encarou o curral pronto para a limpeza. Abriu as grandes folhas da porta enquanto pensava “ não deve ser difícil..." até seu pensamento emudeceu. Deveria ter uns 50 anos que ninguém limpava aquele lugar. O cheiro ocre incomodava suas narinas e, por instinto, correu para fora tropeçando nos utensílios de limpeza. Encarou novamente as portas, agora abertas. Pensou em desistir mas sabia que era isso que esperavam dele, não podia dar essa satisfação sádica ao Sr. Lyon, tinha que provar que conseguia, mas sozinho iria demorar meses. Pegou o telefone e discou.
- Já se perdeu? - disse a loura brincando.
- Oi, você disse que Hefesto cria umas máquinas, será que ele não teria uma de lavagem?
- Acho que ele criou uma, mas tenho que ver com ele. Te ligo já. 
15 minutos depois apareceu Hefesto dirigindo algo que parecia uma mistura de um trator com caminhão de lavagem de rua, com grandes esfregões embaixo.
O rapaz parou a máquina e desceu ficando de pé ao lado, todo orgulhoso.
- Apresento o Two Rivers II. A melhor máquina de lavagem em grande escala, nunca antes testada. Com o poder de um mar revolto, lava até manchas mais difíceis.
- Se é mar, porque chama “river”?
- Ocean não era um nome tão intimidador para essa belezinha! – deu dois tapinhas na lataria – Vamos, suba logo! Quero vê-la em ação! - os olhos brilhavam de excitação enquanto empurrava Hércules para dentro da boleia e mostrava os comandos - coisa simples, está vendo? Liga, ele é automático, então nem precisa se preocupar com a marcha, frente, botão azul para água, botão vermelho para esfregão, botão verde para o sabão e esse amarelo - ele apertou e saiu um som de uma buzina de bicicleta infantil - para dar uma graça irônica. Você sabe dirigir, né?!
- Deveria? 
- Nossa!  O que vocês da cidade fazem para se divertir? Vocês são estranhos.  – Hefesto tinha a mania de falar sozinho e emendar uma frase na outra, coisa que o jovem já estava se acostumando e por isso não tentou se defender - Mas ele anda devagar. Você não precisará de grandes reflexos. Na dúvida é só parar. Bem, é isso. - disse enquanto descia pela escada - estarei aqui fora se precisar.
- Hei! - Hércules segurou ele pelo braço - você disse que esse nunca foi testado e que é o II. O que aconteceu com o primeiro? 
Hefesto olhou diretamente para os olhos dele, estudando o rapaz
- Melhor você não saber. O importante é que está tudo certo agora. E qualquer problema o botão laranja destrava tudo para uma saída de emergência. Boa sorte! - e, num pulo mais ágil que ele parecia capaz, Hefesto estava no chão acenando.

Hércules respirou fundo, se benzeu e ligou o caminhão. Por sorte era realmente mais fácil do que parecia e em poucos minutos ele já estava acostumado com os comandos e a dirigibilidade e velocidade o fazia lembrar um carrinho de bate-bate, mas com o triplo do tamanho.
Para surpresa de todos, até mesmo de Hércules, os currais estavam limpos antes da hora do almoço.

Assim que desceu do Two Rivers precisou conter um Hefesto realmente empolgado:
- Cara foi DEMAIS!!!! Eu sabia que ele funcionaria  sem problemas. Fiquei preocupado no inicio, mas quando não saiu aquela fumaça estranha quando você acionou a água eu sabia que daria certo. Eu tenho mais uns 5 protótipos para você testar e uns outros 10 em produção.
- Não, cara. Agradeço, mas não quero ser seu piloto de teste...
- Ah, que isso. Você vai adorar. Essa semana?
- Não vai dar...
- Na sexta?
- Não!
- Ok. Ok. Quinta feira que vem então. – olhou sobressaltado – preciso me preparar. Até!

E Hefesto foi coxeando rapidamente para aquele labirinto que chamavam de fazenda, com mil ideias na cabeça, gesticulando sozinho e ignorando completamente os protestos de Hércules.

O rapaz conseguiu, com alguma dificuldade, voltar e assim que colocou os pés dentro de refeitório não conseguiu conter o sorriso ao ver a expressão de espanto e descrédito estampada no rosto do Sr. Lyon. 
...continua...