terça-feira, 24 de março de 2015

Os 12 Trabalhos - Parte IV


Para entender a história toda:
Os 12 trabalhos - Parte I , Parte II , Parte III


...continuação...

Acertaram o acordo de trabalho. Hércules seria um “faz tudo” na fazenda, alguns empregados tinham pedido demissão e os trabalhos estavam acumulando. O início seria imediato e duraria 1 mês, período que estava de férias do emprego em sua cidade natal. Como forma de pagamento, além do salário, receberia alimentação e acomodações, um quarto equipado no celeiro, o que agradou o rapaz pela privacidade e por faze-lo se sentir como Clark Kent em Smallville.

Trato feito, mãos apertadas e, com a esperança restabelecida, o jovem voltou para o hotel para pegar suas malas.

Já havia passado da hora do almoço quando ele regressou carregando uma bagagem modesta para o tempo que pretendia ficar. Hera o aguardava e o conduziu pela fazenda até seu aposento.
Olhando apenas pela casa, que não era pequena, não poderia-se imaginar a extensão do terreno. Como descobriu durante o tour os Gregórios eram donos de 80% da produção de uvas da cidade, dispersa em vários hectares de terras e mantinham no terreno da residência uma produção mais modesta e variada, com animais, hortaliças, frutas e legumes usadas parte como subsistência e parte como escambo com os vizinhos dos arredores, que mantinham mais por tradição do que por necessidade, entretanto cuidar de coisas variadas exigia funcionários.
Após o rapaz se acomodar brevemente, Hera o levou até um homem com uns 55 anos, corpo atarracado, cabelos ralos e espertos olhos negros, que mantinha uma postura de arrogância que não combinava com sua roupa simples de trabalho.
- Hércules esse é o Seu Lyon. Ele é nosso melhor e mais antigo funcionário - o senhor não pode conter o sorriso - e você responderá a ele. Seu Lyon - disse se dirigindo ao homem - conto com você para treina-lo e ensinar a nossa rotina.
- Pode contar comigo, senhora, farei o meu melhor.
- Obrigada. Boa sorte, garoto - após isso a mulher se afastou deixando-os.
Lyon ficou em mudo julgamento por alguns longos segundos e repentinamente perguntou:
- Por que está aqui?
Pegando o rapaz desprevenido que o olhou como se não entendesse o questionamento
- É surdo? Por que está aqui? - insistiu com grosseira impaciência
- A senhora me ofereceu o emprego... - iniciou a explicação que logo foi interrompido
- O que o levou a bater na porta e então receber o convite de trabalho?
Hércules o encarou e o achou muito intrometido e resolveu criar uma história evitando assim maiores questionamentos:
- Eu... estou numa viagem de descoberta. Venho de mochila e troco trabalho por comida e abrigo.
O senhor o avaliou novamente por alguns segundos e soltou um som de reprovação
- Não sei o que dá na cabeça dessa juventude. O importante é saber trabalhar e não ter preguiça.
- Claro, senhor. – apesar do olhar de descrença recebido, o rapaz manteve a pose inabalável.

O resto do dia foi apenas cansativo e repleto de perguntas pessoais, as quais ele se esquivou com muito esforço, instruções sobre como plantar, colher e alimentar os animais. Hércules tinha um curso técnico em veterinária, mas preferiu omitir, deixando Lyon o ensinar as coisas que ele conhecia tão bem. O treinamento terminou pontualmente às 17h com o sermão da importância do rapaz estar no dia seguinte às 7h pronto para o trabalho. Hércules ouviu tudo pacientemente e retornou arrastando os pés para o celeiro. Ao abrir a porta deparou-se com um rapaz sentado numa cadeira, esquecida em meio aos restos de palha, o aguardando. Ele tinha os cabelos negros e lisos, num corte que deveria ter sido curto, mas agora estava num comprimento desleixado. A pele era branca e tinha uma aparência pouco saudável, principalmente associada a sua magreza. Ao ver Hércules entrar ele se levantou e se aproximou do rapaz, coxeando da perna direita:
- Desculpa a intromissão, mas minha curiosidade era grande em te conhecer. Afrodite foi tagarelando sobre você o caminho inteiro... – disse em forma de justificativa - Sou Hefesto – estendeu a mão fina e comprida. E enquanto Hércules respondia ao cumprimento, emendou - Por que você está aqui fora?
- Vocês desta cidade gostam muito de perguntar, né?! – ao observar a expressão de espanto e constrangimento do seu interlocutor o jovem tentou se explicar – não calma, é que essa tarde passei por um interrogatório do Seu Lyon. Chegou uma hora que achei que iria passar por um polígrafo ou algo do tipo.
Hefesto soltou uma sonora gargalhada
- Seu Lyon é assim mesmo. Acredito que parte dos funcionários que vão embora é por causa dele. As vezes o achamos assustador, mas trabalha bem e está a tanto tempo aqui que é difícil pensar nas coisas sem ele. E sobre as perguntas... bem, eu tinha algumas, mas acho que passará por algo parecido no jantar então guardarei minha curiosidade pra depois.
Hércules fez uma cara de dor em pensar em se sentar à mesa com aquela família.
- Será que eu não poderia comer aqui?
Hefesto sorriu com o canto da boca e falou enquanto mancava para a porta:
– Você realmente não conhece minha mãe.
Hércules soltou o ar enquanto a porta se fechava, “Outra coisa que deve ser por causa da água daqui é essa mania de falar enquanto sai. ” Balançou a cabeça para espantar o pensamento, respirou fundo e pegou os itens para tomar banho e se preparar para mais uma sessão de interrogatório.

O rapaz chegou atrasado para o jantar, não queria ir e se enrolou ao máximo esperando que quando chegasse todos já tivessem partido, mas estava enganado.
Ao entrar, se espantou com o tamanho da mesa de 10 lugares e com a quantidade de pessoas ali sentadas. Todos estavam lá. Zeus ocupava a ponta, sentada ao seu lado direito estava Hera, seguida por Atena, Ares e Afrodite. Ao lado esquerdo de Zeus estava Hefesto, e na sequencia uma garota e um garoto ruivos com os cabelos encaracolados, que ele não conhecia, e eram claramente os mais novos, não deveriam ter mais de 15 anos.
De forma encabulada, ainda mais com todos o encarando, Hércules fez uma menção com a cabeça e murmurou alguma tentativa de desculpa que não foi ouvida e interrompida pela grave voz de Zeus.
- Hércules! Por favor, se sente e sirva-se. – Disse apontando para a farta mesa.
O jovem, evitando cruzar olhares com os outros ocupantes, serviu-se de uma pequena porção, sentou-se timidamente ao lado do ruivo e emudeceu.
Ia começar a comer quando Ares o puxou para a conversa:
- Ah, Não! Impossível você comer só isso, principalmente depois de trabalhar a tarde toda.
- Na verdade, hoje eu mais andei do que trabalhei – começou a se explicar com a voz ainda tímida.
- Impossível o velho Lyon ter pegado leve com você. Apolo, - dirigiu-se para o jovem ruivo – por favor coloque mais umas colheradas de purê para o maninho. – o desconforto com essa indicação do parentesco foi palpável, mas Ares pareceu não se importar com isso e continuou – Não queremos mais nenhum esquálido na família. Nada contra Hefesto, te acho gatinho! – e mandou um beijo para o irmão que o fuzilava com os olhos enquanto os outros riam.
 - Ares, pare de provoca-lo. – censurou Afrodite
- É - concordou Atena - Ele pode ter uma carreira de verdade no futuro e você precisará dele. Por exemplo, eu gosto muito da Afrodite e não pensarei 2 vezes quando for contratá-la como faxineira.
As duas se olharam se provocando, mas tudo em forma de brincadeira. Hércules começava a se sentir bem ali, a noite estava correndo bem, com conversas leves e ele até riu de uma piadinha ou duas.
Estava mais relaxado quando cruzou os olhos com Apolo, que voltando a evidenciar o elefante na sala o questionou:
- Então você é mesmo nosso irmão?
Hércules balançou a cabeça num sinal afirmativo e voltou a se calar.
A mesa foi tomada novamente pelo incomodo.
- Então o Seu Lyon pegou leve com você? – Zeus puxou novamente uma conversa
- É, ele só me mostrou o espaço, me ensinou a fazer algumas coisas. Coisa simples.
- E encheu de perguntas, né?! – Instigou Hefesto – Me encontrei com Hércules mais cedo e ele me falou sobre isso – explicou a todos.
- É, um pouco. Quis saber quem eu era e essas coisas.
- Mas você não disse nada sobre...sobre... – Hera tentou falar, mas a dificuldade em aceitar o fato ainda lhe doía.
- Não, não! – rapidamente esclareceu – eu disse que estava em viagem e que parei aqui e pedi um trabalho para ganhar uns trocados.
- Acho melhor ele não saber. – decretou Hera.
Hércules concordou com a cabeça e voltou a se concentrar em suas ervilhas.
- Quem sabe você ali não consegue solucionar o mistério dos funcionários perdidos? – disse a jovem ruiva num tom displicente.
Todos olharam para ela esperando uma explicação
- Gente, por que essas caras? Ninguém para na fazenda e não deve ser só medo do velho Lyon.
- Sr. Lyon – corrigiu Hera à uma jovem que só deu de ombros – e não há mistério nenhum, Ártemis. Os adultos são assim, arrumam empregos melhores e trocam. Simples assim.
Ártemis revirou os olhos com clara impaciência juvenil:
- Whatever.
O silêncio novamente tomou conta da mesa, porém Apolo logo pediu licença para se levantar e ir dormir e aproveitando o gancho Hércules o seguiu no pedido alegando que deveria estar pronto às 7h e sem atraso.
Zeus concordou e o rapaz se despediu de todos com um "Boa noite" acanhado e seguiu para o celeiro.

Enquanto subia a escada de mão para o mezanino, Hércules avaliou a noite como boa e esperava que os dias se seguissem assim.
Chegou ao quarto e olhou em volta, havia ali uma cama bem forrada e araras que ainda estavam vazias pois não tivera tempo de abrir sua bagagem. Olhou para o teto e reparou numa claraboia que ficava no lado oposto da cama, abriu a janela que fechava o vão sem nenhuma dificuldade e olhou o céu estrelado. Sentou na cama e teve a feliz surpresa de perceber que conseguia ver o céu dali e, apesar da hora avançada não teve coragem de fecha-la e adormeceu olhando as estrelas.

...continua...