sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

Os 12 Trabalhos - Parte III


Para entender a história toda:
Os 12 trabalhos - Parte I , Parte II


...continuação...

Zeus sentou na poltrona em frente de Hércules e projetou o corpo, ficando assim mais próximo do garoto. Hera preferiu ficar de pé atrás do marido e cruzou os braços. A mulher mantinha a expressão séria que não combinava com o avental cheio de farinha, seria um quadro cômico mas a forma irredutível do olhar não dava espaço para o humor. A boca do rapaz secou e o nó na garganta apertou enquanto olhava para ela, baixou os olhos para Zeus e percebeu que ele tinha uma expressão calma e amigável o que tirou um pouco o peso que sentia.
Os três ficaram alguns instantes em silêncio, pai e filho simplesmente esquadrilhando o rosto um do outro e encontrando tantas semelhanças que ambos tinham a impressão de olharem para espelhos refletindo uma outra época, como se a única diferença estivesse dentro dos olhos, já que o jovem herdara o gênio tempestuoso da mãe.
Hera sentia o silêncio esmagá-la e quando não aguentou mais limpou ruidosamente a garganta, trazendo os dois de volta a realidade. Ela esperava respostas.
Hércules cruzou o olhar com os dois e não sabia como começar, percebendo o pânico na expressão do jovem Zeus interveio:
- Acho que não fomos apresentados decentemente. Eu sou Zeus Gregório, está é minha esposa Hera e pelo que vi você conheceu três dos meus filhos. - sorriu encorajando o rapaz.
- Prazer, eu sou Hércules. Hércules Garanus. Não sei se você se lembra da minha mãe...
- Alcmena - completou Zeus ignorando o suspiro irado da esposa - me lembro sim. E como ela está? - o rapaz desviou o olhar encarando suas próprias mãos - Desculpe, eu...eu não... eu sinto...
- Tudo bem - interrompeu Hércules percebendo o constrangimento - O sr. não sabia e... e já faz quase um ano. Um acidente...
- Se foi a um ano, por que veio nos procurar agora? - interrompeu Hera sem demostrar compaixão.
Hércules se calou e sentiu aquelas palavras como um soco no estômago, mas Zeus veio ao seu socorro desferindo um olhar para Hera se conter:
- Não precisa de motivos. Por favor me conte sua história.
O garoto respirou e as palavras lhe voltaram e, sem levantar os olhos dos joelhos, começou:
- Não há muito o que saber sobre mim. Durante toda vida, minha mãe evitou o assunto sobre... - hesitou - você. Ouvi dezenas de histórias e imaginei dezenas de possíveis pais, que era piloto da aeronáutica, que morreu de doença, que era caixeiro viajante, que era Rock star - o rapaz sorriu como se algumas lembranças o divertisse - tornou-se até uma brincadeira nossa. Cada vez que o assunto surgia criávamos uma identidade nova e preenchíamos de coisas absurdas, poderia não ser o ideal, mas era bom e me bastou por um tempo. Com o passar dos anos aquilo deixou de suprir tudo o que eu queria saber e comecei a pressioná-la mais e mais. – sorriu encabulado olhando de lado para Zeus - Já te odiei por nunca me procurar e quando minha mãe disse que você não sabia sobre mim, eu a odiei por me negar te conhecer. – Hércules ficou em silêncio alguns segundos, lembrando de tempos passados, e com olhar vago continuou - Até já odiei o universo por não forçar um encontro casual, como nos filmes, e por anos esperei em cada aniversário e dia dos pais você entrar pela porta - Hércules respirou fundo, era difícil ser tão franco sobre isso - e depois de tanta raiva e luta, eu comecei a aceitar. Aceitar a ausência nas festas, nas comemorações, nas datas especiais. Comecei a achar ilógica essa saudade do que nunca tive e aceitar de bom grado a vida que levava. Parei de pressionar minha mãe e de procurar traços semelhantes nos rostos de homens desconhecidos. E então quando tudo parecia estar correto, quando a vida começava a caminhar em paz veio o acidente. Uma rua escura, um carro desgovernado e - engoliu aquela lembrança intragável - ela se foi. Demorei um tempo para aparecer por que levei um bom tempo para tomar coragem em me desfazer das coisas dela. Sei que é estranho um filho tão apegado a mãe, mas quando a mãe é a única coisa que se tem no mundo, não há muito mais no que se prender. Então, com o passar dos meses fui arrumado um cômodo de cada vez e por último foi o quarto, onde encontrei isso. - Hércules tirou do bolso uma carta amassada, porém ainda fechada, escrita por Zeus e endereçada a Alcmena.
Zeus pegou a correspondência e a examinou. Ele lembrava de tê-la escrito tarde da noite, para Hera não saber, e o envelope ainda estar lacrado doeu um pouco. Doeu mais do que ele ter acreditado por anos que ela não quis lhe responder, a recusa era ainda maior, ela nem quisera ler o que ele tinha para falar, mas aquela era uma dor egoísta, uma dor de ego ferido que parte dele sabia não ter o direito de sentir.
- Então... - disse Hércules - Você sabia?
Zeus levantou o olhar da carta e se deparou com os olhos semelhantes aos seus encarando-o duramente e ele só pode fazer um sim com a cabeça.
Uma lágrima rolou espontaneamente dos olhos do rapaz que sentiu no amargo da boca a, já conhecida, rejeição.
A dor transmitida por aquela simples lágrima fez o sentimento de Hera se dividir, ela sentia vontade de pegar aquele garoto e cuidar dele, queria dar a família que ele sempre esperou ter, queria trazer a mãe de volta, mas, ao mesmo tempo, a traição estampada naqueles traços não seus fazia seu sangue ferver de ódio.
O rapaz enxugou o rosto e levantou pronto pra sair. O clima ali estava muito pesado e ele queria fugir daquilo tudo. Ao se levantar a expressão corporal fez Zeus se lembrar de Alcmena e a última vez que ele a viu. Aquela pressa em ir embora era idêntica a da mulher que saiu do restaurante quando ele revelou ser casado. Aquela lembrança o travou e ele não pôde levantar os olhos para Hércules.
Hera de súbito disse:
- Você pode ficar aqui - os dois a olharam assustados. Ela tentou continuar desconcertada - e..
- Não, obrigado - respondeu rapidamente o rapaz - se me dão licença... - ele saiu da sala em um salto e já estava alcançando a porta quando ouviu atrás de si.
- Não estou te oferecendo uma casa. - a mulher disse num tom imperativo - Estou lhe oferecendo um emprego. Preciso de alguém para me ajudar na fazenda e você parece bem forte para isso. Em troca, pode dormir por aqui e vocês dois vão se conhecendo melhor.
O silêncio no corredor dera a segurança de que o rapaz estava avaliando a proposta, Zeus lançou um olhar de agradecimento, mas Hera nem percebeu porque olhava fixamente para a entrada da sala.
Já havia passado quase meio minuto quando o rapaz reapareceu concordando com a cabeça e a mulher pôde soltar o ar que estava preso em seus pulmões.

...continua...

3 comentários:

Anônimo disse...

QUERO MAIS! QUERO MAIS! QUERO MAIS! MUITO LHOOOOCO DEH <3

Renizia Quezia Mendes Porto disse...

Pronto, cá estou aflita pela continuação, novamente...

Ruh Dias disse...

Gostei da praticidade da Hera no momento de tensão. E até do leve quê de compaixão no final, quando ela lhe oferece um emprego. Pensei que ela tacaria na cara dele todos os waffles.

E gostei mais ainda que, nesta parte, o Hércules ganhou profundidade e um passado. Ótimo como sempre!