quinta-feira, 17 de setembro de 2015

Os 12 trabalhos - Parte V


Para entender a história toda:


...continuação...


7:00 Hércules já estava acordado e pronto para o trabalho. Sr. Lyon olhou até assustado quando chegou e já viu o rapaz sentado no refeitório o aguardando e, o jovem poderia jurar, te-lo visto passar uma nota de dinheiro, como se pagasse uma aposta, para um outro funcionário, o qual ignorava totalmente o nome.

- Não posso dizer que não estou impressionado com sua pontualidade. Muitos jovens aventureiros, como você, já passaram por aqui, mas poucos tiveram tanta disposição. Você se lembra onde ficam os currais?

Hércules franziu o cenho, puxando na memória.

- Iiihhh Lyon, acho que ele precisa daqueles totens, como tem nos shoppings, com um mapa com uma grande indicação “Você está aqui! ” – provocou o outro funcionário sorrindo de forma jocosa.

O jovem o encarou com um olhar frio que fez o sorriso do homem murchar e disse:

- Sim, eu me lembro onde fica.
- Ótimo!  - exclamou o senhor – pegue balde e esfregão. O seu trabalho do dia é limpá-los.
- Certo senhor! – Hércules saiu de forma altiva e com a segurança de quem sabe para onde estava indo, mesmo não tendo tanta certeza de ondem ficavam os baldes e muito menos os currais.
Quando o jovem saiu, o funcionário se dirigiu ao Lyon:
- Isso sim é crueldade! Já faz um tempo desde a última limpeza. O rapaz num vai guentá não.
E com um sorriso o senhor o respondeu:
- É isso que eu espero. – e ainda se divertindo com a maldade do dia, ele encaminhou cada um para o seu posto.

Fazia quase 1 hora que o jovem caminhava sem rumo pela fazenda. Tinha conseguido achar os baldes mas agora não fazia a menor ideia de onde estava indo e estava quase certo de já ter passado por aquele local, quando uma voz conhecida veio ao seu socorro:
 - Tá perdido? - Atena brincava num balanço feito por tábua e corda preso a uma árvore - é a terceira vez que vejo passar por aqui em menos de 15 minutos.
O jovem jogou os braços para cima:
- Graças ao bom Deus! Pensei que estava enlouquecendo! 
Ela riu e continuou a se balançar
- Onde quer ir?
- Preciso ir para os currais. - disse erguendo os instrumentos justificando-se. 
Os olhos da garota adquiriram um ar vago enquanto ela pensava num melhor caminho e jeito de explicar:
- Você poderia virar...não...hum...sabe onde ficam os maquinários? - o garoto fez uma careta - a entrada para horta? - ainda a careta - o celeiro? - ele riu desconcertado - Ta! Eu te levo até lá! - ela deu um impulso e saltou deixando o brinquedo se balançar sozinho - Vamos! É por aqui. - disse tomando a dianteira.
- Obrigado! Daqui a pouco o sr. Lyon vai verificar meu trabalho e eu ainda nem comecei.
- Iiih, relaxa. Esse é um tipo de lugar que ninguém vai. Nos currais há máquinas que alimentam os animais e trocam a água, criação do Hefesto, e o boiadeiro apenas abre as portas do lugar para colocar e tirar os animais de lá. Não é estranho você não ter encontrado. 
Enquanto falava a garota ia andando por labirintos de galinheiros, parreiras, flores e chuchus.
- O que você faz na sua cidade?
- Sou auxiliar de veterinário. Fiz um curso técnico junto com o Colégio.
- Pretende seguir na área?
Hércules a olhou meio de lado:
- Não sei ainda. Gosto de animais, mas, sinceramente, com tudo que anda acontecendo não parei para pensar se gosto ou não, se quero ou não. É difícil decidir essas coisas tão cedo.
- Entendo. Decidi fazer advocacia meio que no chute. Não que eu não goste, há uma sensação boa quando consegue-se argumentar com propriedade, entende?! Convencer as pessoas não só pela lábia e sim porque você tem razão - ela sorriu com o canto da boca - acho que eu só gosto é de estar certa. E quem não gosta, né?!
Ambos concordaram rindo. Seguiram alguns segundos de silencio que foi quebrado pelo jovem:
- É estranho me ter aqui, né?!
Atena só consentiu com a cabeça, mas continuou em silencio.
- Por muitas e muitas vezes no caminho eu me perguntei o por que continuar a viagem. Por que ir atrás de um pai que a única coisa que fez foi ignorar a mim e a minha mãe, mas sabe quando parece faltar algo? Quando, por mais completo que esteja, há um canto escuro repleto de tristeza e mágoa? E foi por isso que resolvi bater na porta de vocês, não queria e nem quero atrapalhar nada por aqui, mas eu precisava me livrar disso, precisava me sentir em paz. Tinha que olhar nos olhos do homem que, na minha cabeça, nunca tinha me procurado e tentar entender o porquê. É difícil explicar...
A loura sorriu com o canto dos lábios.
- Não pense que você é o único "não filho de Hera". Não precisei bater na porta de um desconhecido 17 anos depois, mas sei o que sente. É um peso do "por que eles e não eu?"
- Exatamente...
Voltaram a ficar em silencio por cerca de 1 minuto mas agora foi Atena que o quebrou: 
- Bem, é aqui - disse a loura apontado para um grande barracão. - Os animais devem estar fora, o que vai te ajudar muito. Bom trabalho - a moça se virou pronta para voltar.
- E como eu saio daqui? Você poderia ficar e ser minha guia, né?!
- Acha que não tenho mais o que fazer?! - ela pôs a mão na cintura como se estive ofendida
- Ah é mesmo, você tem que se balançar.
Ela deu um tapa no antebraço dele se divertindo
- Nada disso. Livros para ler e coisas para estudar. Estar sempre certa não é tão simples assim. – ela deu um sorriso largo - mas se você se perder de novo, liga pra mim que venho te buscar. E... sobre aquele assunto, sei que é difícil, mas não ache que foi rejeição. Zeus não é tão ruim quando se conhece. Ele tem um bom coração e é bem capaz que nunca teve a intenção de renegá-lo. No meu caso, ele só foi descobrir quando eu tinha 7 anos e minha mãe bateu nessa mesma porta e me apresentou. E desde aquele dia, nunca senti que ele gostasse menos de mim ou que me tratasse diferente. Acredito que com você deverá ser assim também. Liberte-se desta mágoa e tente conhece-lo. 
Ele concordou balançando a cabeça pensativo e ela voltou pelo caminho.

O rapaz chacoalhou a cabeça para espantar os pensamentos, agora era hora de trabalhar e mais tarde pensaria sobre isso. Encarou o curral pronto para a limpeza. Abriu as grandes folhas da porta enquanto pensava “ não deve ser difícil..." até seu pensamento emudeceu. Deveria ter uns 50 anos que ninguém limpava aquele lugar. O cheiro ocre incomodava suas narinas e, por instinto, correu para fora tropeçando nos utensílios de limpeza. Encarou novamente as portas, agora abertas. Pensou em desistir mas sabia que era isso que esperavam dele, não podia dar essa satisfação sádica ao Sr. Lyon, tinha que provar que conseguia, mas sozinho iria demorar meses. Pegou o telefone e discou.
- Já se perdeu? - disse a loura brincando.
- Oi, você disse que Hefesto cria umas máquinas, será que ele não teria uma de lavagem?
- Acho que ele criou uma, mas tenho que ver com ele. Te ligo já. 
15 minutos depois apareceu Hefesto dirigindo algo que parecia uma mistura de um trator com caminhão de lavagem de rua, com grandes esfregões embaixo.
O rapaz parou a máquina e desceu ficando de pé ao lado, todo orgulhoso.
- Apresento o Two Rivers II. A melhor máquina de lavagem em grande escala, nunca antes testada. Com o poder de um mar revolto, lava até manchas mais difíceis.
- Se é mar, porque chama “river”?
- Ocean não era um nome tão intimidador para essa belezinha! – deu dois tapinhas na lataria – Vamos, suba logo! Quero vê-la em ação! - os olhos brilhavam de excitação enquanto empurrava Hércules para dentro da boleia e mostrava os comandos - coisa simples, está vendo? Liga, ele é automático, então nem precisa se preocupar com a marcha, frente, botão azul para água, botão vermelho para esfregão, botão verde para o sabão e esse amarelo - ele apertou e saiu um som de uma buzina de bicicleta infantil - para dar uma graça irônica. Você sabe dirigir, né?!
- Deveria? 
- Nossa!  O que vocês da cidade fazem para se divertir? Vocês são estranhos.  – Hefesto tinha a mania de falar sozinho e emendar uma frase na outra, coisa que o jovem já estava se acostumando e por isso não tentou se defender - Mas ele anda devagar. Você não precisará de grandes reflexos. Na dúvida é só parar. Bem, é isso. - disse enquanto descia pela escada - estarei aqui fora se precisar.
- Hei! - Hércules segurou ele pelo braço - você disse que esse nunca foi testado e que é o II. O que aconteceu com o primeiro? 
Hefesto olhou diretamente para os olhos dele, estudando o rapaz
- Melhor você não saber. O importante é que está tudo certo agora. E qualquer problema o botão laranja destrava tudo para uma saída de emergência. Boa sorte! - e, num pulo mais ágil que ele parecia capaz, Hefesto estava no chão acenando.

Hércules respirou fundo, se benzeu e ligou o caminhão. Por sorte era realmente mais fácil do que parecia e em poucos minutos ele já estava acostumado com os comandos e a dirigibilidade e velocidade o fazia lembrar um carrinho de bate-bate, mas com o triplo do tamanho.
Para surpresa de todos, até mesmo de Hércules, os currais estavam limpos antes da hora do almoço.

Assim que desceu do Two Rivers precisou conter um Hefesto realmente empolgado:
- Cara foi DEMAIS!!!! Eu sabia que ele funcionaria  sem problemas. Fiquei preocupado no inicio, mas quando não saiu aquela fumaça estranha quando você acionou a água eu sabia que daria certo. Eu tenho mais uns 5 protótipos para você testar e uns outros 10 em produção.
- Não, cara. Agradeço, mas não quero ser seu piloto de teste...
- Ah, que isso. Você vai adorar. Essa semana?
- Não vai dar...
- Na sexta?
- Não!
- Ok. Ok. Quinta feira que vem então. – olhou sobressaltado – preciso me preparar. Até!

E Hefesto foi coxeando rapidamente para aquele labirinto que chamavam de fazenda, com mil ideias na cabeça, gesticulando sozinho e ignorando completamente os protestos de Hércules.

O rapaz conseguiu, com alguma dificuldade, voltar e assim que colocou os pés dentro de refeitório não conseguiu conter o sorriso ao ver a expressão de espanto e descrédito estampada no rosto do Sr. Lyon. 
...continua...

terça-feira, 24 de março de 2015

Os 12 Trabalhos - Parte IV


Para entender a história toda:
Os 12 trabalhos - Parte I , Parte II , Parte III


...continuação...

Acertaram o acordo de trabalho. Hércules seria um “faz tudo” na fazenda, alguns empregados tinham pedido demissão e os trabalhos estavam acumulando. O início seria imediato e duraria 1 mês, período que estava de férias do emprego em sua cidade natal. Como forma de pagamento, além do salário, receberia alimentação e acomodações, um quarto equipado no celeiro, o que agradou o rapaz pela privacidade e por faze-lo se sentir como Clark Kent em Smallville.

Trato feito, mãos apertadas e, com a esperança restabelecida, o jovem voltou para o hotel para pegar suas malas.

Já havia passado da hora do almoço quando ele regressou carregando uma bagagem modesta para o tempo que pretendia ficar. Hera o aguardava e o conduziu pela fazenda até seu aposento.
Olhando apenas pela casa, que não era pequena, não poderia-se imaginar a extensão do terreno. Como descobriu durante o tour os Gregórios eram donos de 80% da produção de uvas da cidade, dispersa em vários hectares de terras e mantinham no terreno da residência uma produção mais modesta e variada, com animais, hortaliças, frutas e legumes usadas parte como subsistência e parte como escambo com os vizinhos dos arredores, que mantinham mais por tradição do que por necessidade, entretanto cuidar de coisas variadas exigia funcionários.
Após o rapaz se acomodar brevemente, Hera o levou até um homem com uns 55 anos, corpo atarracado, cabelos ralos e espertos olhos negros, que mantinha uma postura de arrogância que não combinava com sua roupa simples de trabalho.
- Hércules esse é o Seu Lyon. Ele é nosso melhor e mais antigo funcionário - o senhor não pode conter o sorriso - e você responderá a ele. Seu Lyon - disse se dirigindo ao homem - conto com você para treina-lo e ensinar a nossa rotina.
- Pode contar comigo, senhora, farei o meu melhor.
- Obrigada. Boa sorte, garoto - após isso a mulher se afastou deixando-os.
Lyon ficou em mudo julgamento por alguns longos segundos e repentinamente perguntou:
- Por que está aqui?
Pegando o rapaz desprevenido que o olhou como se não entendesse o questionamento
- É surdo? Por que está aqui? - insistiu com grosseira impaciência
- A senhora me ofereceu o emprego... - iniciou a explicação que logo foi interrompido
- O que o levou a bater na porta e então receber o convite de trabalho?
Hércules o encarou e o achou muito intrometido e resolveu criar uma história evitando assim maiores questionamentos:
- Eu... estou numa viagem de descoberta. Venho de mochila e troco trabalho por comida e abrigo.
O senhor o avaliou novamente por alguns segundos e soltou um som de reprovação
- Não sei o que dá na cabeça dessa juventude. O importante é saber trabalhar e não ter preguiça.
- Claro, senhor. – apesar do olhar de descrença recebido, o rapaz manteve a pose inabalável.

O resto do dia foi apenas cansativo e repleto de perguntas pessoais, as quais ele se esquivou com muito esforço, instruções sobre como plantar, colher e alimentar os animais. Hércules tinha um curso técnico em veterinária, mas preferiu omitir, deixando Lyon o ensinar as coisas que ele conhecia tão bem. O treinamento terminou pontualmente às 17h com o sermão da importância do rapaz estar no dia seguinte às 7h pronto para o trabalho. Hércules ouviu tudo pacientemente e retornou arrastando os pés para o celeiro. Ao abrir a porta deparou-se com um rapaz sentado numa cadeira, esquecida em meio aos restos de palha, o aguardando. Ele tinha os cabelos negros e lisos, num corte que deveria ter sido curto, mas agora estava num comprimento desleixado. A pele era branca e tinha uma aparência pouco saudável, principalmente associada a sua magreza. Ao ver Hércules entrar ele se levantou e se aproximou do rapaz, coxeando da perna direita:
- Desculpa a intromissão, mas minha curiosidade era grande em te conhecer. Afrodite foi tagarelando sobre você o caminho inteiro... – disse em forma de justificativa - Sou Hefesto – estendeu a mão fina e comprida. E enquanto Hércules respondia ao cumprimento, emendou - Por que você está aqui fora?
- Vocês desta cidade gostam muito de perguntar, né?! – ao observar a expressão de espanto e constrangimento do seu interlocutor o jovem tentou se explicar – não calma, é que essa tarde passei por um interrogatório do Seu Lyon. Chegou uma hora que achei que iria passar por um polígrafo ou algo do tipo.
Hefesto soltou uma sonora gargalhada
- Seu Lyon é assim mesmo. Acredito que parte dos funcionários que vão embora é por causa dele. As vezes o achamos assustador, mas trabalha bem e está a tanto tempo aqui que é difícil pensar nas coisas sem ele. E sobre as perguntas... bem, eu tinha algumas, mas acho que passará por algo parecido no jantar então guardarei minha curiosidade pra depois.
Hércules fez uma cara de dor em pensar em se sentar à mesa com aquela família.
- Será que eu não poderia comer aqui?
Hefesto sorriu com o canto da boca e falou enquanto mancava para a porta:
– Você realmente não conhece minha mãe.
Hércules soltou o ar enquanto a porta se fechava, “Outra coisa que deve ser por causa da água daqui é essa mania de falar enquanto sai. ” Balançou a cabeça para espantar o pensamento, respirou fundo e pegou os itens para tomar banho e se preparar para mais uma sessão de interrogatório.

O rapaz chegou atrasado para o jantar, não queria ir e se enrolou ao máximo esperando que quando chegasse todos já tivessem partido, mas estava enganado.
Ao entrar, se espantou com o tamanho da mesa de 10 lugares e com a quantidade de pessoas ali sentadas. Todos estavam lá. Zeus ocupava a ponta, sentada ao seu lado direito estava Hera, seguida por Atena, Ares e Afrodite. Ao lado esquerdo de Zeus estava Hefesto, e na sequencia uma garota e um garoto ruivos com os cabelos encaracolados, que ele não conhecia, e eram claramente os mais novos, não deveriam ter mais de 15 anos.
De forma encabulada, ainda mais com todos o encarando, Hércules fez uma menção com a cabeça e murmurou alguma tentativa de desculpa que não foi ouvida e interrompida pela grave voz de Zeus.
- Hércules! Por favor, se sente e sirva-se. – Disse apontando para a farta mesa.
O jovem, evitando cruzar olhares com os outros ocupantes, serviu-se de uma pequena porção, sentou-se timidamente ao lado do ruivo e emudeceu.
Ia começar a comer quando Ares o puxou para a conversa:
- Ah, Não! Impossível você comer só isso, principalmente depois de trabalhar a tarde toda.
- Na verdade, hoje eu mais andei do que trabalhei – começou a se explicar com a voz ainda tímida.
- Impossível o velho Lyon ter pegado leve com você. Apolo, - dirigiu-se para o jovem ruivo – por favor coloque mais umas colheradas de purê para o maninho. – o desconforto com essa indicação do parentesco foi palpável, mas Ares pareceu não se importar com isso e continuou – Não queremos mais nenhum esquálido na família. Nada contra Hefesto, te acho gatinho! – e mandou um beijo para o irmão que o fuzilava com os olhos enquanto os outros riam.
 - Ares, pare de provoca-lo. – censurou Afrodite
- É - concordou Atena - Ele pode ter uma carreira de verdade no futuro e você precisará dele. Por exemplo, eu gosto muito da Afrodite e não pensarei 2 vezes quando for contratá-la como faxineira.
As duas se olharam se provocando, mas tudo em forma de brincadeira. Hércules começava a se sentir bem ali, a noite estava correndo bem, com conversas leves e ele até riu de uma piadinha ou duas.
Estava mais relaxado quando cruzou os olhos com Apolo, que voltando a evidenciar o elefante na sala o questionou:
- Então você é mesmo nosso irmão?
Hércules balançou a cabeça num sinal afirmativo e voltou a se calar.
A mesa foi tomada novamente pelo incomodo.
- Então o Seu Lyon pegou leve com você? – Zeus puxou novamente uma conversa
- É, ele só me mostrou o espaço, me ensinou a fazer algumas coisas. Coisa simples.
- E encheu de perguntas, né?! – Instigou Hefesto – Me encontrei com Hércules mais cedo e ele me falou sobre isso – explicou a todos.
- É, um pouco. Quis saber quem eu era e essas coisas.
- Mas você não disse nada sobre...sobre... – Hera tentou falar, mas a dificuldade em aceitar o fato ainda lhe doía.
- Não, não! – rapidamente esclareceu – eu disse que estava em viagem e que parei aqui e pedi um trabalho para ganhar uns trocados.
- Acho melhor ele não saber. – decretou Hera.
Hércules concordou com a cabeça e voltou a se concentrar em suas ervilhas.
- Quem sabe você ali não consegue solucionar o mistério dos funcionários perdidos? – disse a jovem ruiva num tom displicente.
Todos olharam para ela esperando uma explicação
- Gente, por que essas caras? Ninguém para na fazenda e não deve ser só medo do velho Lyon.
- Sr. Lyon – corrigiu Hera à uma jovem que só deu de ombros – e não há mistério nenhum, Ártemis. Os adultos são assim, arrumam empregos melhores e trocam. Simples assim.
Ártemis revirou os olhos com clara impaciência juvenil:
- Whatever.
O silêncio novamente tomou conta da mesa, porém Apolo logo pediu licença para se levantar e ir dormir e aproveitando o gancho Hércules o seguiu no pedido alegando que deveria estar pronto às 7h e sem atraso.
Zeus concordou e o rapaz se despediu de todos com um "Boa noite" acanhado e seguiu para o celeiro.

Enquanto subia a escada de mão para o mezanino, Hércules avaliou a noite como boa e esperava que os dias se seguissem assim.
Chegou ao quarto e olhou em volta, havia ali uma cama bem forrada e araras que ainda estavam vazias pois não tivera tempo de abrir sua bagagem. Olhou para o teto e reparou numa claraboia que ficava no lado oposto da cama, abriu a janela que fechava o vão sem nenhuma dificuldade e olhou o céu estrelado. Sentou na cama e teve a feliz surpresa de perceber que conseguia ver o céu dali e, apesar da hora avançada não teve coragem de fecha-la e adormeceu olhando as estrelas.

...continua...

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

Os 12 Trabalhos - Parte III


Para entender a história toda:
Os 12 trabalhos - Parte I , Parte II


...continuação...

Zeus sentou na poltrona em frente de Hércules e projetou o corpo, ficando assim mais próximo do garoto. Hera preferiu ficar de pé atrás do marido e cruzou os braços. A mulher mantinha a expressão séria que não combinava com o avental cheio de farinha, seria um quadro cômico mas a forma irredutível do olhar não dava espaço para o humor. A boca do rapaz secou e o nó na garganta apertou enquanto olhava para ela, baixou os olhos para Zeus e percebeu que ele tinha uma expressão calma e amigável o que tirou um pouco o peso que sentia.
Os três ficaram alguns instantes em silêncio, pai e filho simplesmente esquadrilhando o rosto um do outro e encontrando tantas semelhanças que ambos tinham a impressão de olharem para espelhos refletindo uma outra época, como se a única diferença estivesse dentro dos olhos, já que o jovem herdara o gênio tempestuoso da mãe.
Hera sentia o silêncio esmagá-la e quando não aguentou mais limpou ruidosamente a garganta, trazendo os dois de volta a realidade. Ela esperava respostas.
Hércules cruzou o olhar com os dois e não sabia como começar, percebendo o pânico na expressão do jovem Zeus interveio:
- Acho que não fomos apresentados decentemente. Eu sou Zeus Gregório, está é minha esposa Hera e pelo que vi você conheceu três dos meus filhos. - sorriu encorajando o rapaz.
- Prazer, eu sou Hércules. Hércules Garanus. Não sei se você se lembra da minha mãe...
- Alcmena - completou Zeus ignorando o suspiro irado da esposa - me lembro sim. E como ela está? - o rapaz desviou o olhar encarando suas próprias mãos - Desculpe, eu...eu não... eu sinto...
- Tudo bem - interrompeu Hércules percebendo o constrangimento - O sr. não sabia e... e já faz quase um ano. Um acidente...
- Se foi a um ano, por que veio nos procurar agora? - interrompeu Hera sem demostrar compaixão.
Hércules se calou e sentiu aquelas palavras como um soco no estômago, mas Zeus veio ao seu socorro desferindo um olhar para Hera se conter:
- Não precisa de motivos. Por favor me conte sua história.
O garoto respirou e as palavras lhe voltaram e, sem levantar os olhos dos joelhos, começou:
- Não há muito o que saber sobre mim. Durante toda vida, minha mãe evitou o assunto sobre... - hesitou - você. Ouvi dezenas de histórias e imaginei dezenas de possíveis pais, que era piloto da aeronáutica, que morreu de doença, que era caixeiro viajante, que era Rock star - o rapaz sorriu como se algumas lembranças o divertisse - tornou-se até uma brincadeira nossa. Cada vez que o assunto surgia criávamos uma identidade nova e preenchíamos de coisas absurdas, poderia não ser o ideal, mas era bom e me bastou por um tempo. Com o passar dos anos aquilo deixou de suprir tudo o que eu queria saber e comecei a pressioná-la mais e mais. – sorriu encabulado olhando de lado para Zeus - Já te odiei por nunca me procurar e quando minha mãe disse que você não sabia sobre mim, eu a odiei por me negar te conhecer. – Hércules ficou em silêncio alguns segundos, lembrando de tempos passados, e com olhar vago continuou - Até já odiei o universo por não forçar um encontro casual, como nos filmes, e por anos esperei em cada aniversário e dia dos pais você entrar pela porta - Hércules respirou fundo, era difícil ser tão franco sobre isso - e depois de tanta raiva e luta, eu comecei a aceitar. Aceitar a ausência nas festas, nas comemorações, nas datas especiais. Comecei a achar ilógica essa saudade do que nunca tive e aceitar de bom grado a vida que levava. Parei de pressionar minha mãe e de procurar traços semelhantes nos rostos de homens desconhecidos. E então quando tudo parecia estar correto, quando a vida começava a caminhar em paz veio o acidente. Uma rua escura, um carro desgovernado e - engoliu aquela lembrança intragável - ela se foi. Demorei um tempo para aparecer por que levei um bom tempo para tomar coragem em me desfazer das coisas dela. Sei que é estranho um filho tão apegado a mãe, mas quando a mãe é a única coisa que se tem no mundo, não há muito mais no que se prender. Então, com o passar dos meses fui arrumado um cômodo de cada vez e por último foi o quarto, onde encontrei isso. - Hércules tirou do bolso uma carta amassada, porém ainda fechada, escrita por Zeus e endereçada a Alcmena.
Zeus pegou a correspondência e a examinou. Ele lembrava de tê-la escrito tarde da noite, para Hera não saber, e o envelope ainda estar lacrado doeu um pouco. Doeu mais do que ele ter acreditado por anos que ela não quis lhe responder, a recusa era ainda maior, ela nem quisera ler o que ele tinha para falar, mas aquela era uma dor egoísta, uma dor de ego ferido que parte dele sabia não ter o direito de sentir.
- Então... - disse Hércules - Você sabia?
Zeus levantou o olhar da carta e se deparou com os olhos semelhantes aos seus encarando-o duramente e ele só pode fazer um sim com a cabeça.
Uma lágrima rolou espontaneamente dos olhos do rapaz que sentiu no amargo da boca a, já conhecida, rejeição.
A dor transmitida por aquela simples lágrima fez o sentimento de Hera se dividir, ela sentia vontade de pegar aquele garoto e cuidar dele, queria dar a família que ele sempre esperou ter, queria trazer a mãe de volta, mas, ao mesmo tempo, a traição estampada naqueles traços não seus fazia seu sangue ferver de ódio.
O rapaz enxugou o rosto e levantou pronto pra sair. O clima ali estava muito pesado e ele queria fugir daquilo tudo. Ao se levantar a expressão corporal fez Zeus se lembrar de Alcmena e a última vez que ele a viu. Aquela pressa em ir embora era idêntica a da mulher que saiu do restaurante quando ele revelou ser casado. Aquela lembrança o travou e ele não pôde levantar os olhos para Hércules.
Hera de súbito disse:
- Você pode ficar aqui - os dois a olharam assustados. Ela tentou continuar desconcertada - e..
- Não, obrigado - respondeu rapidamente o rapaz - se me dão licença... - ele saiu da sala em um salto e já estava alcançando a porta quando ouviu atrás de si.
- Não estou te oferecendo uma casa. - a mulher disse num tom imperativo - Estou lhe oferecendo um emprego. Preciso de alguém para me ajudar na fazenda e você parece bem forte para isso. Em troca, pode dormir por aqui e vocês dois vão se conhecendo melhor.
O silêncio no corredor dera a segurança de que o rapaz estava avaliando a proposta, Zeus lançou um olhar de agradecimento, mas Hera nem percebeu porque olhava fixamente para a entrada da sala.
Já havia passado quase meio minuto quando o rapaz reapareceu concordando com a cabeça e a mulher pôde soltar o ar que estava preso em seus pulmões.

...continua...